terça-feira, 31 de dezembro de 2019

Sentir

Dessa vez estou atrasada 3 meses... Cada vez menos comprometida com a pontualidade de uma postagem no último dia do ano, mas ainda fiel à "obrigação" de postar alguma coisa aqui.

A minha primeira lembrança da vida (e eu realmente lembro disso) é o dia que minha mãe me levou no médico para furar minha orelha e poder usar brinquinho. Eu tinha meses e lembro vagamente da recepção do consultório (que tinha uma coluna no meio) e da dor que senti ainda bebê.

Depois de mais crescida, ainda quando eu tinha uns 3 anos, lembro do Fabrício e eu brincando na sala do apartamento dele e nos escondendo em um armário apertado.

Lembro que com 6 anos eu brincava com uma amiguinha na escolinha de sermos fadinhas.

E me recordo das tardes mais gostosas e felizes jogando futebol na rua com minhas outras 3 amiguinhas. Tinha 9 anos.

Lembro que aos 12 anos eu não me reconheci no espelho. Lembro que aos 13 eu comecei a amar Guns n' Roses. E aos 14 tudo o que eu queria era ganhar um computador.

Aos 15 me apaixonei. Aos 17 terminei um ciclo. Aos 20 arrumei meu primeiro emprego. Aos 22 comecei a faculdade. Aos 24 aprendi o que era amor. Aos 25 senti a dor da perda. Aos 26 sofri como nunca. Aos 27 terminei outro ciclo. Aos 29 eu senti.

Eu descobri que não tenho mais controle algum sobre minhas emoções. Acho que meu corpo rejeita sentimentos e emoções e por isso eu choro. Incontáveis as vezes que chorei esse ano, sem nem haver razão para isso. Eu não consigo mais controlar nada.

A ansiedade tomou conta de mim e eu não consigo mais me reconhecer. Não tenho confiança. Tenho medo.

Hoje olho para um espelho humano e reconheço nela aquela menina que um dia nada sentia, que um dia foi segura, que um dia teve tudo sob controle.

Aquela menina sofria por não sentir. E não sofria por não ser atingida pelo sentir.

Hoje o problema é sentir demais. É sentir por inteiro. É sentir pelos outros.

Existe um meio termo?

Se permitir finalmente sentir (sem qualquer restrição) é um sinal de um amadurecimento qualquer? Ou é um claro exemplo de que algo não está tão certo?

Tenho me visto envolvida emocionalmente com questões alheias a mim. O problema do outro vira meu problema. E eu me vejo na obrigação de ajudar, curar, vingar, lutar. Qual o sentido disso?

Preciso sentir menos.

Extinto de sobrevivência me fez escolher fugir. E acabei voltando pra "casa". Será que eu vou conseguir encontrar aquela menina que se perdeu no tempo?

Especificamente sobre essa semana, a dor da ruptura tem sido muito grande. Como deixar uma história para traz? Como quebrar um laço? Como deixar de sentir? Sentir o que não pode. Sentir o que não deve. Preciso fugir.

Você é minha força e eu sou a sua. Isso existe mesmo? Se existir, acho que a minha força também se perdeu no vento.

Agora é recomeço. Mas, de novo??


[Malandragem - Cássia Eller]

Quem sabe eu ainda sou uma garotinha
Esperando o ônibus da escola sozinha
Cansada com minhas meias três quartos
Rezando baixo pelos cantos
Por ser uma menina má
Quem sabe o príncipe virou um chato
Que vive dando no meu saco
Quem sabe a vida é não sonhar
Eu só peço a Deus
Um pouco de malandragem
Pois sou criança
E não conheço a verdade
Eu sou poeta e não aprendi a amar
Eu sou poeta e não aprendi a amar






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